Como reduzir a carga cognitiva no controle diário da diabetes sem abrir mão da densidade de informação que médicos e pacientes precisam.
Pacientes com doenças crônicas — especialmente idosos ou pessoas com limitações visuais e motoras — enfrentam interfaces de saúde que foram desenhadas para o desenvolvedor, não para o usuário. O desafio central não era criar um app de diabetes. Era criar uma plataforma de telemedicina que transmitisse segurança no acompanhamento diário, garantindo que a tecnologia fosse uma aliada operacional, não uma fonte adicional de estresse.
Muitos apps de saúde tratam acessibilidade como checklist de conformidade — fontes maiores, mais contraste. Mas o problema era estrutural: a arquitetura de informação partia do dado técnico, não da necessidade emocional do paciente. Uma pessoa em hipoglicemia não lê um dashboard. Ela precisa de uma ação imediata e de confiança para executá-la.
A pergunta de design foi reformulada: em vez de "como exibir a glicemia?", a questão passou a ser "o que o paciente precisa saber, fazer e sentir em cada estado da sua condição?"
Crises glicêmicas acontecem. O design precisa funcionar com visão turva, tremores e cognição reduzida — não apenas no estado de saúde plena.
Termos como "hiperglicemia" ou intervalos em mmol/L são excludentes para os 30% dos diabéticos com até 8 anos de estudo.
Pacientes crônicos não gerenciam a saúde sozinhos. O app precisa facilitar o compartilhamento com médicos e cuidadores sem atrito.
A pesquisa foi conduzida em duas frentes: desk research com dados epidemiológicos e análise competitiva de 4 apps de diabetes disponíveis no Brasil. As descobertas definiram as restrições de design antes de qualquer wireframe.
Prevalência de 30,3% em brasileiros acima de 65 anos (Vigitel/MS, 2023). O público mais afetado é o que enfrenta maiores barreiras de adoção digital.
Incidência maior entre pessoas com até 8 anos de escolaridade — tornando Linguagem Simples e Ícones Universais não apenas acessibilidade, mas necessidade de produto.
Brasil ocupa o 6º lugar mundial em diabetes — 16,6M de adultos (IDF Diabetes Atlas, 10ª Ed.). Contexto que justifica especificidade regional no produto.
Fontes: IDF Diabetes Atlas (10ª Ed.) e Vigitel/Ministério da Saúde (2023)
| Padrão observado | Problema identificado |
|---|---|
| Dashboards com 6+ métricas na tela principal | Sobrecarga cognitiva antes da ação. Usuário precisa interpretar antes de agir. |
| Botões com área de toque <44px | Inacessível para tremores motores leves (frequente em diabéticos idosos). |
| Termos técnicos sem tradução contextual | "Hiperglicemia" sem explicação do que fazer agora. |
| Alertas de emergência enterrados em menus | Fluxo crítico exige 3–4 toques. Em crise, isso é tempo que o paciente não tem. |
Análise conduzida em: Glooko, mySugr, Bigfoot Biomedical e aplicativo do SUS (Saúde Cidadão). Critérios: área de toque, hierarquia de informação, terminologia, fluxo de emergência.
Helena foi construída a partir dos dados epidemiológicos — não inventada. Ela representa o cruzamento de maior prevalência: mulher, 60+, contexto urbano periférico, início de complicações secundárias. Projetar para Helena é projetar para a maioria silenciosa do mercado.
"Eu uso o celular pra falar com a família. Mas esses aplicativos de saúde parecem que foram feitos pra médico, não pra mim. Fico com medo de apertar a coisa errada."
A seguir, as principais decisões de design com o raciocínio de trade-off explicitado — o que foi considerado, o que foi descartado e por quê. Essa documentação faz parte do artefato de design, não do relatório final.
A tag de estado ("Nível Normal", "Atenção") precede o dado bruto na hierarquia visual. Reduz carga cognitiva no momento de leitura.
Alerta médico está sempre no campo visual principal. Nenhuma tela do app enterra o gatilho de emergência a mais de 1 toque.
Cada registro traz período do dia e valor — eliminando a necessidade de correlação manual que hoje acontece apenas na consulta.
A atualização em tempo real é visível — "Última atualização: Hoje, 08:50". Não é detalhe técnico; é garantia emocional para o paciente.
Exportação de relatórios e identificação de padrões estão disponíveis sem exigir que o paciente entenda análise de dados.
Protótipo navegável — Hi-Fi Fidelidade
Ao construir um sistema que funciona para Helena — visão comprometida, tremores, baixa tolerância a erros — inevitavelmente produzimos um produto mais limpo, mais rápido e mais confiável para qualquer usuário. Acessibilidade não é um requisito de conformidade. É uma estratégia de qualidade de produto.
O Vitalis não resolveu o diabetes. Resolveu a distância entre o paciente e o controle da própria saúde.